ANIME REVIEW | Devilman Crybaby (2018)

Bom, é janeiro de um ano novo. Hora de dar um tempinho nos lançamentos otacos, buscar umas coisas de antigamente que ainda não assisti e esperar uns meses até que a temporada caminhe para o final e, só então, começar a conferir os desenhos atuais.

Huh, pera, a Netflix resolveu soltar um anime completinho apelando para uma obra clássica do gênero e todo mundo está comentando tal pornozão? Oh wow, lá se vão minhas férias…

Okay, antes de tudo, um elefante branco precisa ser tirado da sala em vez de omitido: Eu não sou o maior conhecedor de todos os tempos da obra do Go Nagai. Sei que ele é um nome importantíssimo na história dos mangás, sei que seus formatos de histórias influenciaram nomes que vieram depois, mas nunca me interessei em ler ou assistir nada vindo dele. Nem tem um motivo pra isso, só não rolou mesmo. Pretendo até tirar o atraso esse ano.

No entanto, esse fato pode ter sido vantajoso, já que pude assistir Devilman Crybaby sem qualquer expectativa, podendo ter a impressão de um espectador casual em vez de fã ou ~entendido~ no assunto. Se isso foi ou não favorável para minha percepção, aí já é outro papo.

Enfim, numa daquelas minhas sinopses toscas e preguiçosas: “Devilman Crybaby” conta a história de um moleque que se torna um híbrido de capeta (corpo) e humano (coração) após um amigo de infância levá-lo para uma festa (regada a álcool, drogas ilícitas e sexo, pois sutileza não faz parte do pacote) onde demônios tomam os corpos das pessoas. Daí em diante, a dupla começa a caçar essas tais entidades satânicas, que parecem estar dominando o Japão pelas sombras.

Óbvio, tem mais coisa, as proporções começam a ficar gigantescas com o passar dos episódios, mas, é, no bruto mesmo, é isso aí, uma trama sobrenatural com herói/monstro rastreando vilões/monstros.

Dito isso, comigo, digo que o desenho funcionou em partes, mas ao fim, ficou aquele gosto de gordura excessiva. É um limbo entre o “bem legal” e o “pra que isso?” estranhamente intrigante.

A trilha sonora é fantástica, o estilo de traço e de animação também, principalmente no retrô proposital dos demônios. O roteiro é redondo e eficaz, sem muitas firulas. As discussões colocadas são realmente interessantes (o que é ser um ser humano, o que é pecar, o que não é ser um ser humano etc.) e alguns dos personagens são relativamente bem feitos e legais de serem acompanhados.

O modo como ilustram o quão frágil é o fio que delimita a humanidade em cada um é eficaz. Adoro a ilustração das pessoas se deixarem levar pela histeria da existência de demônios e muitas delas aproveitarem esse fato para liberar seus preconceitos ora vergonhosos, reunindo-se em milícias ou bandos cegamente levados pelo medo ou raiva do diferente é como um soco no estômago. Em tempos onde neonazistas marcham sem qualquer pudor gritando contra os que não se encaixam em seus padrões, chega a ser até inquietante o quão semelhante da realidade tudo isso pode ser.

Além disso, o simples fato de isso ser um anime “adulto”, macabro e, err, “errado” com um design de personagem que foge do moe doente me desperta um sorrisinho do canto de boca. Ainda mais sendo uma mega produção distribuída internacionalmente.

Porém, como eu disse, um gosto de gordura fica ao final. Eu totalmente entendo que todo o erotismo exagerado é proposital para retratar o que é errado e pecaminoso naquele mundo, justificando a influência dos demônios e blá blá blá. As cenas estão ali para ditar o tom daquela obra e a ideia é fortalecida por toda essa sujeira.

Só que (e aí é algo totalmente particular), principalmente no início, elas acabam por chamar atenção demais. É como se, em vez delas serem usadas para complementar o enredo, na real, as mesmas fossem o pacote principal e todo o resto fosse só um emaranhado de introduções que todos pulam no pornô.

Não é algo que compromete totalmente o anime, mas acaba incomodando. Me lembrou uma conversa que tive com uns amigos anos atrás, onde alguns defendiam que existia uma certa genialidade nas críticas sociais colocadas em “South Park” (sim, o desenho, que eu ainda acho bem bom, só pra constar), mas outros diziam que tudo era apenas uma desculpa para os showrunners colocarem todo tipo de escatologia em tela e que tais reflexões se perdiam em meio a tanta bosta. “Devilman Crybaby” quase vai nesse caminho. Quase. Ao fim, as coisas acabam melhor balanceadas.

O maior problema mesmo é outro. Talvez por conta do exagero em tempo de tela dedicado ao erotismo, boa parte dos “monstros da semana” da primeira metade da série são porcamente desenvolvidos. As histórias por trás são quase inexistentes, as coisas apenas acontecem por terem que acontecer.

Fica difícil de se importar (huh, spoiler) com os pais do protagonista morrendo e se transformando num demônio tartaruga com os rostos conscientes daqueles que foram devorados, já que não rola uma construção verdadeiramente forte da importância que aqueles personagens tem para ele. Eles morrem e, tá, tanto faz. Até a (ahein, mais spoiler) sereia lá que batia siririca pensando no demônio que ele representa teve mais utilidade na história, já que seu mini arco de foda/luta abriu a possibilidade da ideia de demônios terem sentimentos mais profundos que o puro instinto.

De qualquer forma, como eu disse, ao final, tudo meio que fica balanceado. A partir dos eventos ocorridos no “ato de virada”, os personagens secundários que interferem diretamente na história começam a ser melhor desenvolvidos. Ironicamente, a quantidade de erotismo vai diminuindo de maneira proporcional.

Enfim, falando como o espectador ocasional que fui, “Devilman Crybaby” é um anime muito bom. Requer uma certa paciência, pois demora para engrenar, mas o resultado é satisfatório. Não acho que seja para todo mundo, pois pesa demais a mão na putaria, mas deve agradar bastante aqueles amigos cinéfilos que defendem filmes do Lars von Trier como algumas das maiores obras primas da contemporaneidade. Aí está a chance de vocês provarem que também têm cultura, otacos… 😀

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A cena dele ejaculando no teto é tão “Todo Mundo em Pânico”. Como tanta gente levou esse anime tão a sério?

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