Rogério de Campos explica a quase acidental publicação de “Dragon Ball” no Brasil e outras coisas pro Pipoca & Nanquim

Eu já falei que tem muita gente fazendo conteúdo otaku legal no YouTube, né? Pois bem, os caras do canal Pipoca & Nanquim, especializados em quadrinhos e trecos do tipo, soltaram uma entrevista impressionante com o Rogério de Campos (basicamente, o cara que trouxe os mangás de “Dragon Ball” e “Cavaleiros do Zodíaco” pro Brasil e, consequentemente, popularizou tal mercado aqui) e que vale muito a pena ser assistida.

Confiram…

Mas como eu sei que vocês, leitores, são preguiçosos e não assistirão o programa de quarenta minutos acima, mesmo que tal tempo realmente valha a pena, farei um resumão dos principais tópicos abordados.

Como eu disse, o Rogério de Campos é um dos principais nomes da história de publicações de quadrinhos orientais aqui no Brasil por inúmeros motivos. Ele esteve à frente da Conrad como sócio anos atrás e foi responsável por trazer “Dragon Ball” e “Cavaleiros do Zodíaco” no estilo de leitura original japa (de trás pra frente, em preto e branco), consequentemente popularizando as delícias e plantando as sementes do que hoje conhecemos como um mercado editorial aceitável – embora iniciante – aqui.

PRIMEIRO CONTATO COM MANGÁS, REVISTA HERÓI, POKÉMON CLUB E DRAGON BALL

Em vídeo, ele fala que seu provável primeiro contato com mangás no Brasil foi através de quadrinhos eróticos, provavelmente publicados de maneira pirata, com textos nos balões inventados. Mas ele se aprofundaria nesse universo mais pra frente.

No caso, por conta da revista Herói, que funcionava como um “jornalismo para crianças” antigamente, pautada por, huh, coisas que a pirralhada consumia (animes, séries, desenhos ocidentais e por aí vai). Porém, com o surgimento de outras revistas concorrentes nessa temática, além de mais outras que focavam mais em certos segmentos, as vendas começaram a despencar.

Ele mesmo acabou por encabeçar uma desse tipo, a icônica “Pokémon Club” (tenho quase todas as do começo aqui guardadas), o que o fez se tornar um “especialista” em Pokémon aqui no Brasil. Dentro dessa revista, rolavam “quadrinhos” coloridos, que nada mais eram que prints dos episódios balonados com os diálogos. Ele enxergou que essa seria uma boa alternativa de mercado e, por já conhecer e entender o sucesso que era “Dragon Ball”, queria fazer o mesmo usando os episódios do anime, em tal formato colorido.

Isso fez com que ele entrasse em contato com a Shueisha, editora detentora dos direitos de “Dragon Ball”, que tinha bode do Brasil por sei lá qual motivo, tentando adquiri-los para publicar tal revistinha colorida aqui. Mas a galera japa responsável empurrou a versão original do quadrinho, em preto e branco e em leitura oriental, como condição para que a colorida viesse mais tarde.

Rogério-nii-chan quase deu pra trás, afirmando não acreditar que isso funcionaria com as crianças daqui, acostumadas a ler gibis coloridos. Ainda mais com a condição colocada de que a tiragem inicial fosse de 50 mil exemplares. Era isso ou nada, então a Conrad aceitou e estipulou que tal valor fosse utilizado como custo de marketing, apenas como um caminho para a revista colorida.

Ou seja, a vinda do mangá para cá como deve ser lido só ocorreu por… Acidente. E, vejam que delícia, “Cavaleiros do Zodíaco”, contemporâneo de publicação, também só veio por os japoneses exigirem uma “compra casada” de títulos e ele acreditar que, pelo conhecimento prévio da galera aqui, por conta da revista Herói, TV e ser uma marca mais popular que a outra opção, “Video Girl Ai”, a história daria menos prejuízo.

O resultado disso foi, ahein, um sucesso completo e totalmente inesperado por parte da Conrad e do Rogério. “Dragon Ball” vendeu a primeira tiragem muito rápido e precisou ser reimpresso, tornando-se uma febre editorial.

Aah, sabem os tais quadrinhos coloridos printados dos episódios? Na verdade, a Shueisha nem tinha direito sobre eles, que pertenciam à Toei. Sério, a história se torna mais hilária a cada revelação.

PROBLEMAS COM MEIO TANKO À ÉPOCA E CENÁRIO ATUAL FAVORÁVEL PARA PUBLICAÇÕES

Naquela época, os mangás foram publicados em formato meio tanko, ou seja, cada edição era equivalente à metade de uma edição japonesa normal. Sobre isso, Rogério diz que acha ter sido um erro e conta ainda que, em dado momento, a escolha por tal formato quase quebrou as pernas do negócio aqui no Brasil.

Ele explica que, além de esse não ser um ritmo que segue corretamente o dos japoneses, o tamanho e preço acabou criando na cabeça do público uma ligação com gibizinhos baratos. Que “Dragon Ball” foi um sucesso, vendeu muito, mas isso foi exceção. O que serviu pra ele, não serviu para a maioria dos títulos. Eles começavam a vender muito, mas com o passar das edições, tais números caiam. E como era o dobro da quantidade de revistas originais, ao fim, as editoras estavam quase pagando para terminar as séries.

No entanto, ele vê o cenário atual como melhor e mais favorável para o mercado, pois existem livrarias e lojas especializadas. À época, os gibis iam apenas para as bancas e ficavam lá por períodos curtos. Então, quando uma obra alcançava a edição original e precisava entrar em hiato, era muito difícil que, ao retorno, as pessoas sequer soubessem que havia voltado pras bancas. E aí, o publico casual, que não frequentava eventos de quadrinhos/otakus, era perdido.

Ainda sobre “Dragon Ball”, ele conta que seu sucesso aqui no ocidente, industrialmente, foi muito importante. Por popularizar publicações em preto e branco, isso permitiu que editoras e autores menores pudessem acontecer por aqui.

AYAKO, CENSURA E IMPORTÂNCIA DE OSAMU TEZUKA

No momento, ele faz parte da editora Veneta, que está publicando o clássico de Osamu Tezuka “Ayako”, em edição de luxo, com mais de 700 páginas, capa dura, materiais extras, um final alternativo e um adendo do Tezuka que sai com exclusividade pela primeira vez fora do Japão – e de maneira quase simultânea à terra do Goku.

Ainda sobre “Ayako”, Rogério explica no vídeo que essa fase e publicação do Tezuka foi extremamente importante para a história dos quadrinhos japoneses. Rolava um movimento de censura vindo das décadas anteriores, com eco da guerra no Vietnã, querendo restringir signos adultos (erotismo, violência) em mangás, com a alegação de que os mesmos influenciavam negativamente a juventude à época (movimentos estudantis contra o governo e a polícia e etc.). E as histórias do Tezuka eram colocadas como as “ideais” a serem seguidas – mais ou menos como se ele fosse o Disney japonês.

No entanto, diferente do original, o autor optou por não abraçar a censura ou se calar a respeito daquilo. Então, publicou textos e outros materiais repudiando aquilo, fundou uma editora própria para a divulgação de histórias mais adultas e criou “Ayako”, um mangá recheado de tudo aquilo que era considerado “errado”, com violência, erotismo gráfico e questões políticas em pauta.

Rogério-senpai coloca que a indústria do quadrinho japonês é superior à dos EUA, pois teve essa vitalidade de ir contra o status quo quando confrontada, não sendo minada num momento chave de censura.

Enfim, é importante também dizer que todo o conteúdo dessa matéria foi retirado do vídeo acima, do canal Pipoca & Nanquim. Todo o mérito das informações tiradas da entrevista é deles. Super indico vocês darem uma olhada mais atenta no trabalho dos caras, se inscreverem, darem like e todas essas porras de YouTube necessárias para que os produtores continuem.

“Ayako” estará disponível na Amazon a partir dessa sexta (16), já em pré-venda por R$129,90. Tá rolando um cupom de desconto deles por lá que vale até o dia 28 de fevereiro. Caso haja interesse, é só clicar aqui e inserir o código AYAKO10 para comprar com 10% de desconto.

Honestamente, não sei se um mangá com isso tudo de páginas me agrada. Eu tenho por hábito andar com livros e revistas dentro da mochila, lendo sempre dentro de ônibus, metrô etc., então ficaria inviável nesse formato. E como nunca li a história, não posso falar se indico ou não. Mas, ó, se vocês quiserem me dar de presente, só avisar, pois infelizmente não estou ganhando nadinha para isso. ;*

 

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