“Fullmetal Alchemist: Brotherhood” não é o melhor anime de “Fullmetal Alchemist”

No meio otaku, rolam umas verdades absolutas que fazem com que aqueles que discordam delas sejam caçados com foices e tochas pelos que as defendem. “A dublagem de Campinas é detestável. Só as de SP e RJ realmente prestam”, “Anime dublado é uma porcaria. Para ter a experiência correta, é necessário assistir ele no idioma original”, “Pokémon é melhor nos jogos, enquanto Digimon é superior nas animações”, “Dragonball GT é uma ofensa à obra perfeita do Arika Toriyama”, “Os filmes do Makoto Shinkai são ótimos”, “Tudo o que sai do Studio Ghibli deve ser exaltado”.

Eu compartilho de algumas dessas opiniões acima, de outras eu dou bastante risada. E da semana passada pra cá, acabei me vendo testando ainda outra verdade otaku absoluta ao, enfim, com quase uma década de atraso, assistir Fullmetal Alchemist: Brotherhood, tido não só como o melhor anime de “FMA”, mas como a maior animação japonesa de todos os tempos.

Sendo bem honesto: discordo bastante de tudo isso.

Nota: Na verdade, nem sei por que resolvi escrever esse texto, já que, eventualmente, acabarei perdendo parte da minha credibilidade quase inexistente com boa parcela dos otacos que entrarem em contato com ele. Provavelmente me acusarão de estar tentando ser diferente para aparecer e trecos do tipo. Bom, tanto faz.

“FMAB” é só um anime shonen de lutinha, gente. E com todos os maneirismos e armadilhas de uma produção do tipo: Os personagens, principalmente nos primeiros arcos, gritam demais, tirando qualquer sutileza necessária para alguma construção dramática nos episódios. Os roteiristas recorrem muito ao humor, com um clima de paródia imperando no ar em dados momentos. O enredo, ao final, acaba tomando proporções mundiais, com um inimigo poderosíssimo e quase inalcançável, só sendo derrotado mesmo porque o protagonista precisa vencer. E os exemplos da cartilha shonen básica seguem.

E não vou mentir não, eu ADORO shonens. Eu adoro esse estilo de narrativa me sendo servido em diferentes pacotes, com ligeiras diferenças e adaptações para universos diferentes. Não é a toa que fiquei anos acompanhando “Naruto” e tenho em “Boku No Hero Academia” um dos meus bagulhos japoneses favoritos da atualidade. São como, numa comparação mais óbvia, filmes pipoca, moldados unicamente para a diversão cinematográfica, sem a obrigação real de me despertar reflexões mais profundas nem nada.

No entanto, entre (o ótimo) “Capitão América: Guerra Civil” e, vá lá, “Festim Diabólico”, é óbvio que a obra do Hitchcock se sobressai à dos irmãos Russo, por variados motivos, contextos e motivações. E com isso eu não quero, de forma alguma, dizer que o primeiro anime de “Fullmetal Alchemist” é um tipo de clássico, vanguardista ou qualquer porra do tipo. Não. Sim, quero dizer que, por variados motivos, contextos e motivações, ele é superior ao seu irmão mais novo – e mais pipocão.

Vamos lá, o primeiro desenho de “FMA” foi ao ar no Japão entre 2003 e 2004. O mangá de mesmo nome que serviu de inspiração para a adaptação começou a sair em 2001 e só terminou sua publicação em 2010. Ou seja, o material base para esse primeiro programa de TV foi bem limitado, com a história ainda bem longe de terminar. Isso fez com que rolasse um aval oficial para que os roteiristas do anime bolassem um final alternativo ao original, ainda nem existente – e é mais ou menos aí que o calo pega para os que exaltam demais o “Brotherhood”.

Sou da opinião de que adaptações não precisam seguir fielmente uma obra original, seja ela um mangá, ou uma novel, ou livro etc., para que ela seja boa, ou mesmo melhor que a inspiração. E esse é o caso do “FMA” de 2003 em comparação com o “FMAB”.

Talvez por precisarem esticar o pouco conteúdo já lançado, a história em “FMA” é contada num ritmo mais lento. Muita gente, hoje em dia, pode achar isso ruim, sinônimo de enrolação, mas, huh, não. Tal velocidade reduzida permitiu que as subtramas contadas fossem melhor desenvolvidas e que acontecimentos importantes (um falso profeta dominando uma cidade, um alquimista que transmutada quimeras, a morte de um certo personagem) ganhassem muito mais importância quando ocorridos, já que houve tempo para que nos apegássemos a tais personagens e nos importássemos com eles.

Há também no anime de 2003 um clima mais melancólico, sombrio, soturno, denso, ou qualquer outra definição parecida, que, em minha opinião, casa mais com o tipo de trama presente. É um mundo em guerra, com discussões religiosas, filosóficas e sociais. É necessário que haja uma “névoa” que torne tais pautas mais “difíceis” de serem digeridas, mesmo interpretadas. Os personagens precisam ter matizes de cinza entre o bem e o mal, precisam ser evoluídos a partir dessas subjetividades. Em “FMA” isso ocorre. Em “FMAB”, as definições de bem e mal são óbvias e mastigadas.

isso vira uma cena de humor em “Brotherhood”

Além de tudo isso, é preciso dizer também que, e muita gente irá discordar veemente disso, provavelmente fechando a aba do blog agora: o rumo que a história original bolada para a primeira série toma é muito mais interessante que o da “oficial” (coloquei entre aspas, pois ambas as histórias são oficiais, mas uma segue mais a risca o mangá e outra cria possibilidades diferentes).

To tentando escrever esse texto sem muitos spoilers, então não me aprofundarei tanto. Mas as motivações para a existência da pedra filosofal, sua criação e o modo como a utilização dela afetou alguns dos personagens cruciais no primeiro é muito mais surpreendente e sutil que a megalomania de um vilão hiperpoderoso tentando dominar o mundo no segundo. Os homúnculos, antagonistas na trama, têm origens absurdamente melhores – e mais angustiantes – no primeiro (Ira e Indolência >> Orgulho e Preguiça), além de serem explorados com muito mais inteligência que a bobagem minion capanga do segundo.

Além da quantidade bem maior de cenas icônicas e memoráveis no primeiro em comparação com o segundo. Okay, spoilers: o Scar transmutando a pedra filosofal dentro do Al usando o exército na cidade de Reole, com a Luxúria extremamente descrente em sua causa, deixando ele escapar >>>>>> o Pai virando ~deus~ sacrificando o país inteiro apenas para, minutos depois, se foder com uma solução fraquíssima pouco convincente. O Edward dançando com a Rosé chapadona e descobrindo que a Lyra/Dante está por trás dos homúnculos >>>>>> o encontro com o Pai no laboratório.

icônico

Enfim, por esses motivos e ainda outros que não citei para não deixar o texto muito maior, considero o primeiro anime de “Fullmetal Alchemist” bastante superior ao “Brotherhood”. Mas, ó, não se enganem, eu curti os dois. De maneiras diferentes, um bem mais que o outro, mas curti. Tanto que acredito ser bem válido assistir ambos, que estão disponíveis oficialmente e não oficialmente por aí.

Verdades absolutas no mundo otaku não devem ser levadas a sério. Não se enganem por notas no My Anime List ou em outros agregadores de críticas e opiniões por aí. É sempre melhor assistir e formar suas próprias convicções a respeito de tais produtos. Concordando ou discordando, vocês terão bagagem para defender suas convicções.

Btw, acho que aproveitarei o embalo de animes-que-todo-mundo-fala-bem-mais-eu-sempre-tive-preguiça-de-ver para tomar vergonha na cara e assistir “Stein;Gate”. Será que presta? :v

 

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10 comentários em ““Fullmetal Alchemist: Brotherhood” não é o melhor anime de “Fullmetal Alchemist”

  1. Genteeeee quando vi o título já imaginava que você teria a mesma opinião que a minha.
    No FMA tudo contribui para deixar o anime melhor: o ano em que foi feito (Pelo menos pra mim animes feitos antes de 2010 possuem um visual mais melancólico mesmo), a Dante e sua morte são icônicas, a morte da mística japonesa (esqueci o nome kkk), a mae do Edward como homunculo, O FINAL, etc.
    TUDO. FMA>>>>>>>>FMAB

    Curtido por 1 pessoa

  2. Querido Lunei, eu discordo e concordo com você, para mim ambas as adaptações são incrivelmente boas, elas mostram diferentes lados do universo do mangá, e se complementam sem se complementar, como você mesmo disse FMA é mais denso, pesado, melancólico, porém Brotherhood tem um crescimento notável da trama e como assisti ele primeiro, o tenho como favorito. Além do mais aquele filme que termina com a história do FMA é ruim de mais e quase estraga o bom trabalho do anime. Agora, bem que podiam fazer uma continuação, acho que seria bem vindo pra todo mundo.

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  3. O meu negócio com o mangá/Brotherhood é por causa dos fãs puristinhas de merda: eles tratam o segundo como o melhor simplesmente por ser mais fiel e blá blá blá.

    O primeiro anime (estou contando a série de TV, o filme e até o OVA Children) é uma verdadeira obra-prima, que está a par do mangá em questão de qualidade. Fora que tem uma coisa nele que dá um toque a mais que o mangá: o final foi agridoce e não felizinho que nem no mangá (sim, eu esperava consequências bem mais pesadas do que o Ed só perdendo a habilidade de transmutar)

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    1. Depois que eu subi esse post, fui dar uma olhada em outros comentários comparando os finais e, é, é mesmo, o final do primeiro é bem mais agridoce e condizente e alinhado com aquilo de troca equivalente. Eles conseguem recuperar o corpo do Al, mas o Ed vai para outra dimensão, então é feliz, mas triste.

      Btw, ainda não assisti o filme que soltaram depois. Vale a pena?

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  4. “Os filmes do Makoto Shinkai são ótimos”.
    Risos que vc discorda com louvor dessa afirmação (não deixe os fãs psicóticos dele saberem que vc caga pros filmes)

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  5. Post maravilhoso Lunei, acho importante ter vozes se levantando contra a maré, a “unanimidade” em torno de certas afirmações precisam ser quebradas!

    Eu particularmente prefiro o mangá e acho que ele nem deveria ter tido animação…mas isso é outra história.

    Curtido por 1 pessoa

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