ALBUM REVIEW | Kyary Pamyu Pamyu – Japamyu (2018)

Eu não tenho a menor ideia de como isso foi acontecer, mas a Kyary Pamyu Pamyu soltou um dos melhores álbuns de 2018.

Confiram meus pitacos sobre o Japamyu

Mentira, sei sim como isso aconteceu, só quis colocar uma chamada alarmante mesmo. Mas não deixa de ser algo surpreendente, nem por ser um trabalho da Kyary, sim por todos os esforços recentes do Yasutaka Nakata terem sido bem abaixo da média.

Pensando, por exemplo, no último deles, o Future Pop, do Perfume. Rolou uma ideia de partida bem interessante, aquilo de “música Pop futurista”, “vanguarda” etc., mas que não só não foi bem executada dentro de suas limitações, visto 90% da tracklist ter sido preenchida com sonoridades datadas e já utilizadas a exaustão por um monte de gente em um monte de lugares do mundo, como fraca mesmo fora desse ideal, já que a maioria das músicas eram bem qualquer coisa quando ouvidas por si só.

No “Japamyu”, temos não só um bom gimick (misturar sonoridades tradicionais da cultura nipônica com o electropop esquisito da Kyary), como uma boa execução do início ao fim, rendendo um repertório delicioso que funciona quando ouvido em sequência ou separadamente. É o melhor de dois mundos, o ideal atingível por acts.

intro Virtual Pamyu Pamyu soa perigosa, tensa, mas divertida. É como um remix sampleado de algum jogo do Nintendinho modificado para as pistas. Kizunami flerta com influências tropicais, mas parece planejada para um anime infantil, tão açucarada (no bom sentido) que é. Contagiante, recheada de elementos sônicos diferentes estrofe a estrofe, energética. Adoro o refrão que demora para aparecer de verdade, cuja melodia gruda na cabeça logo após a primeira audição.

Harajuku Iyahoi, que eu já havia curtido quando lançada como single ano passado, fica ainda melhor acompanhada de outras em tal linha cintilante na tracklist. Ainda é fruto da obsessão do Nakata com aquele EDM-grass do Avicii, mas a interpretação da Kyary é tão cativante que, junto de outras adições no pacote final, deixa tudo parecendo um cântico de desfile nacional para algum feriado ou evento do tipo. Uma gema boa demais que merece ser redescoberta.

Oto no Kuni é ainda outra cuja escolha de sintetizadores parece ter sido retirada de algum videogame antigo, também trabalhada de modo a funcionar como um pancadão para as pistas de dança. Amo a loucura instrumental pós-refrão nela. Kimi no Mikata também é tão boa. Meio oitentista, com uma linha de baixo fodida e um refrão sing-along ao extremo. Charmi Charmi Charming é o momento mais contemplativo, “refrescante”, com um falso refrão mergulhado em glitter e um refrão propriamente dito que guia corretamente o ouvinte ao bate-cabelo que surge em seguida. Um synthpop bem encantador que deve funcionar legal ao vivo.

Enka Natrium é o momento mais surpreendente (e experimental) da tracklist. Aqui, a Kyary se aproxima bastante do que o Wednesday Campanella (ou a Azealia Banks) faz em seus releases, misturando deep house 90s com versos de rap, mas acrescentando alguns ícones do musiqueiro enka na backtrack. É estranho pra cacete, meio bizarro em alguns pontos, mas estupidamente legal de ouvir. Podia ter sido single.

cover de Koi no Hana, do Capsule, alinha a música com o estilo atual de produção do Nakata. Se em sua dupla com a Toshiko o city pop era o que fazia sua cabeça, hoje em dia, as influências europeias são as que prevalecem. O resultado é inferior ao feito originalmente, mas também agrada bastante, sendo uma ouvida satisfatória em toda sua duração.

Todoke Punchb-side do “Easta”, que me passou despercebida no ano passado, é não menos que excelente. O instrumental parece caído da mudança de algum grupo synthrock de 30 anos atrás, pegando pesado na percussão. A Kyary aqui canta como se fosse um robô dominado por uma inteligência artificial manifestando vontade de destruir a raça humana.

Por fim, o album mix daquela Sai & Co, usada como title do best of de 5 anos de carreira, fecha a festa com chave de ouro, bem animada e coerente com o que foi mostrado até então. Porra, que álbum bom!

Meses atrás, quando anunciaram que ela daria uma mudada em sua carreira, amadurecida, com isso possivelmente se refletindo em sua estética visual e sonoridade, achei que seria o fim, que o idol-joke act que todos aprendemos a amar com o passar dos anos falharia em tentar ser mais do que deveria. Felizmente, me enganei.

O “Japamyu” é, para mim, o melhor treco feito pela Kyary Pamyu Pamyu em todos os tempos. Ainda é “Kyary” em sua essência, ousado, estranho, maluco, mas ligeiramente mais azeitado, podado (menos agudo até, huh). Melhor do que tudo que o Nakata botou o dedo esse ano e, vá lá, melhor trabalho fechadinho que ouvi de um artista asiático em 2018 até então. Entrega o que promete. Quase tão bom quanto o “Dirty Computer”, da Janelle Monaé. E a nota só não tá mais alta porque esqueceram de incluir a apocalítica Crazy Crazy na tracklist.

Nota 9,2

Anúncios

2 comentários em “ALBUM REVIEW | Kyary Pamyu Pamyu – Japamyu (2018)

  1. Fico com minhas dúvidas se tem realmente tanta diferença assim entre Future Pop e Japamyu para a internet crucificar um e exaltar outro – apesar de que concordo muitíssimo com a felicidade dessa bagunça de Kyary sendo uma das experiências mais curtinhas e divertidas vinda dela. Ainda assim parece que as pessoas se esqueceram de que o som de Nakata sempre foi baseado nos trendsettings e a defasagem dele é apenas um reflexo da redução do som mundial como um todo. Porque vejamos: o que realmente tem de extraordinário no ocidente para se manifestar positivamente no trabalho do DJ?

    Por pior ou melhor, pelo menos esses dois últimos trabalhos foram polidinhos e coerentes, como se ele tivesse pelo menos parado para decorar o nome das meninas (e Kyary, usualmente, mantendo tudo o que ele sempre quis ser). Risos risos risos.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s